sábado, 12 de setembro de 2009

Texto citado por Maria Bethânia em Maricotinha

Eu sei que atrás deste universo de aparências, das diferenças todas, a esperança é preservada.
Nas xícaras sujas de ontemo café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir, e dela não me conformo.
Eu acredito em tudo, mas eu quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas, minha vida.
Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas.
Amo teu jogo triste.
As tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo.
Eu amo a tua alegria.
Mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência. Até pelo que você poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco.
Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo, quando, sozinha, bordo mais uma toalha de fim de semana.
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.
Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis.
Amo teu sistema de vida e morte.
Eu te amo pelo que se repetee que nunca é igual.
Eu te amo pelas tuas entradas,saídas e bandeiras.
Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa.
Eu te amo de alma para alma. E mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defenda, quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, quando o próprio amor vacila.

Musicando-me ao som de Rita Ribeiro

Como é maiúsculo
O artista e a sua canção
Relação entre Deus e o músculo
Que faz poderosa a sua criação
Pensando bem
É um mistério
Como é misterioso o coração
Como é minúsculo
O olhar de quem vive no escuro
Um sujeito malvado e burro
Alguém machucado como não ter um bem
Não tem porém
Mas tem um tédio
Não ser vítima do assédio de ninguém
Quase não dorme
Vive ao avesso
Medo conhece bem
Sem endereço
Como é que pode
Não fazer mal também
Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó
Solto meus bichos
Pelas músicas quando me aflije
Mas um homem sem esse feitiço
E sem um carinho a que recorrer
Pode matar
Querer morrer
Pois perdeu todo sentido de viver
Letra: Sérgio Sampaio

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo meu sonho,
dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar, esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram.
Pablo Neruda

Se

Se não fosse o meu medo revestido pelas incertezas dos teus
olhos, eu já teria chegado, eu já teria tentado.
Se não fosse o teu silêncio, o teu descaso, muita coisa
teria mudado... muitas flores teriam brotado.
Se não fosse eu tanto respeito, se tivesse eu mais ousadia...
Quem sabe teria eu, as tuas mãos a percorrer as minhas...
Adriana Duarte
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst
O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem.

Jean-Paul Sartre

Rifa-se um Coração

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está umpouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu..."...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento... Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusara cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.
Clarice Lispector

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O som das palavras

Ás vezes o silêncio basta e as
palavras não diferem tanto do olhar.
Mas quase sempre o silêncio ganha tantas
dimensões que se torna necessário dizê-las
em sonoridades, para que não somente
poucos as ouçam mas muitos as compreendam.
Calar se torna necessário quando sabemos que
nossos atos dizem tanto quanto nossas palavras,
mas mesmo assim, é preciso a oralidade dos verbos,
a junção das palavras.
Quantas vezes nos calamos diante de gestos que mereciam
mais que uma só vogal, mais que uma só palavra.
Falar a língua dos nossos desejos, a boca das nossas vontades,
expressar, gritar, verbalizar...
Antes que o calar da covardia nos canse os sonhos e nos esconda
da nossa verdadeira face.


Adriana Duarte

O teu silêncio...

O teu silêncio corta as horas, rasga a tela,
perfura a carne, encharca os olhos...
O teu silêncio mata, mastiga, envelhece,
retarda...
O teu silêncio me incomoda, me transborda,
me enraíza...
se transformando em palavras.

Adriana Duarte

Canção da Plenitude

Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins.(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos...

A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias.
Lya Luft

Saudade

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem,mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido as aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Skol, se ela continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ele continua cantando tão bem, se ela continua adorando o Mac Donald's, se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos
por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você,
provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...

Miguel Falabella

O que ficou de nós

Entre nós, não existe mais carícias, só a tempestade das palavras
ditas e a lucidez da dor que ficou em nós.
Se desmoronou as paredes do quarto e nossos corpos hoje se masturbam
solitários sem o cheiro de nós duas.
Nossos laços se romperam na aurora de um Novo Ano e desfazemos
o agosto de um outro dia.
Calou-se as falas na revolta das minhas lágrimas e assim caminhei sabendo
que chegara ao fim.
Agora será difícil revê-la, com esse nó preso as mãos e esse orgulho emoldurado
pelo desprezo dos seus olhos.
O que restou de nós, nem eu mesma sei dizer, se no vão das horas o silêncio goteja
as sangrentas notas que separam os verbos.

Adriana Duarte

Segundos

Corre dos meus olhos sobre a face,
a última gota de um sorriso.
Na árida pele que me cobre,
contorcendo o meu juízo.
Ao ver minha alma sem abrigo...
esvaindo-me a fala no desespero
do últmo gemido.


Adriana Duarte

Tempo

És majestoso meu tempo!
Meu tempo de amar e esquecer.
Meu tempo de sangrar, menstruar,
e cicatrizar...
Meu tempo lesado e curado.
És majestoso meu tempo!
Que me faz rir e chorar.
Que me desespera e que me acalma.
Que me envelhece e me rejuvenesce.
No dia a dia do meu tempo de amar.
Adriana Duarte.

Voraz

Quero a tua pele revestindo a minha carne,
coberta pelo suor do teu prazer.
Quero gemer com a força dos teus dedos,
penetrando minhas entranhas ùtero à dentro
como bicho devorando a sua presa.
Quero ser íntima do teu corpo explorando
cada esquina, cada canto, cada traço...
Quero minha língua em cada poro e epiderme
me afogando em teu pescoço.
Quero o teu cheiro exalado em minha cama,
sufocando o meu olfato de sexo e orgasmo.
Quero a tua respiração ofegante em meus ouvidos,
acelerando os meus batimentos cardíacos.
Quero você dentro e em volta dos meus sonhos,
alimentando a felicidade dos meus dias.
Adriana Duarte

Despedida

Sinto mais perto o fechar dos olhos,
o calar da voz, o silêncio, o fechar do livro...
Sinto o descompasso do último suspiro,
o descanso, o martírio...
Sinto atravessar a ponte do desconhecido,
a vertigem, o paraíso...
Sinto o sangue que se esgota,
O meu corpo infecto que o parasita olha
Sinto aos poucos ir, por ser já tarde
Sinto que demora, o que já tá perto
Sinto o choro dos afetos
Sinto a cruz das minhas horas
Sinto que termina o que me apavora.
Adriana Duarte

Agora já é tarde...

Agora já é tarde
e a noite chega.
Agora já é tarde
e a tarde cai.
Tarde de tão tardia
que sombria o alvorecer.
Tarde de tanto amar e morrer.
tarde pra entender...
Tarde, tarde...
que demora pra viver.
Adriana Duarte

Agônia

É minha a matéria orgânica do amanhã,
e tenho nas mãos a centralização dos átomos
na atmosfera perdida do meu espaço.
Verei a acumulação dos dias se findando,
e terei mesmo assim, que fechar meus olhos
pra não ser a única testemunha do caos dos nossos
tempos...

Sendo assim protegida pelo estúpido silêncio da minha agônia.

Adriana Duarte.

Nem o tempo

Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente.

Maiakovski .

...

As folhas dançam
em grãos de areia
O vento, o nada...
Em tudo circula o infinito,
nos olhos que escondem a primavera.

Adriana Duarte.

Poema Maldito

Infectou-me o veneno do ciúme,
quando a coléra tomou-me o peito.
E ocupada assim, me tornei deserto,
no desabafo de algums instantes.
Ferindo a minha amada com a língua em chamas
Lancei-me então nas trevas da agônia.
E sustentada pelo remorso estou agora,
ao lado dos vermes que habitam minha memória
Fiz amarga assim minha poesia,
quando pari a maldita criação.
Adriana Duarte.

Anseios

Sonho nos teus seios o meu abrigo
Na dança do teu corpo minha libido
Desvirginar tuas entranhas
Me embebedar do teu orgasmo
Quero ovular com os teus gemidos,
na fecundação louca dos sentidos
Me afogar nas pernas tuas,
na masturbação mútua de nós duas.


Adriana Duarte.

Mulher

Ao me olhar, tu não sabes que guardo
no silêncio mil palavras ditas à você...
Ao me conhecer, desconheces a intensidade
do meu querer...
Ao me sentir entre versos, ignoras o meu
verdadeiro sentido...
Ao me ler, não percebes que as palavras
que digo escondem outras em teu nome...


Adriana Duarte.

Intimidade


Sinto estremecer meu colo,
palpitando-me a vagina.
No endurecer dos meus seios,
minhas mãos me acariciam...
Umedecendo-me entre as pernas,
escorre o meu amor.
Adriana Duarte
.

Último adeus

A cidade acordou mais cedo.
O sino da igreja anunciava mais
um filho que morria.
Os velhos sentados nas calçadas,
as crianças inocentes brincando na praça.
A família comunicou, o padre se preparou.
Já estava pronta a sua chegada.
O povo inteiro na rua aguardava... o mais
novo dos "Justinos"
Era o meu grande pai de olhos fechados
que morria...
Adriana Duarte

Silêncio

Minha palavra cala
por receio de tocá-la...
se retrai, se contrai.
Minha palavra se masturba,
se acaricia, grita e se silencia...

Para não encontrá-la em mim mesma.

Adriana Duarte.

Amor Horizontal


Nosso amor horizontal tinha que ser efêmero.
Em vão eu o quis arquitetar de pé como uma torre, em vão o envolvi de nuvens brancas de sonhos e o enchi de cantos esvoaçantes.
Tu o quiseste horizontal, como devem ser as coisas que nascem no tempo já em posição para morrer.

( Poema de J.G. de Araujo Jorgedo livro "ESPERA..."- 1960 )